[:pb]Minha ideia inicial era falar de doenças endêmicas, suas causas, fontes de transmissão e tratamento, e de como esses assuntos podem ser cobrados em exames como o USMLE. Mas os acontecimentos recentes me fazem sugerir que você pesquise essas respostas nos livros e pense comigo de forma um pouco mais profunda.

Você já deve ter cruzado com a frase “Think globally, act locally”, em muitas ocasiões. O conceito é atual, urgente, e tem sido usado em vários contextos para incentivar as pessoas a tomarem atitudes em suas próprias comunidades, em prol da saúde do planeta. A frase se aplica a iniciativas de planejamento, meio ambiente, educação, negócios e também se encaixa, perfeitamente, na medicina.

Temos sido assolados por tragédias ambientais de proporções devastadoras. A mais recente, a passagem do ciclone Idai por Moçambique e países vizinhos, além de deixar mais de 600 mortos e 1600 feridos, afetou diretamente 1,3 milhão de pessoas. Não fossem suficientemente desafiadores os esforços necessários para lidar com a destruição, a falta de alimentos e de água potável, a cidade de Beira, no centro do país, já registrou duas vítimas fatais da cólera e há relatos de mais de 1.400 casos da doença.

Não podemos dizer que isso seja uma surpresa e a Organização Mundial da Saúde já alertou que o número de infectados deve aumentar. A cólera é endêmica em Moçambique, que registrou surtos regulares da doença, nos últimos cinco anos. De acordo com a OMS, o último surto foi encerrado em fevereiro de 2018, mas o cenário deixado pela tempestade, com abrigos superlotados e as fontes de água contaminadas são gatilhos propícios para criar novas fontes de transmissão.

Nesses casos, o procedimento padrão seria separar os infectados das pessoas sadias e submeter os doentes a uma hidratação agressiva, mas os nove centros de tratamento montados têm capacidade total para apenas 500 pessoas.

De acordo com a imprensa mundial, essa semana foi iniciada uma campanha de vacinação – liderada pelas Nações Unidas, Cruz Vermelha, Crescente Vermelho e Médicos Sem Fronteiras – que vai distribuir 884 mil doses de vacina, financiadas pela Vaccine Alliance (GAVI). O tratamento visa criar uma imunidade temporária, evitando a reinfecção.

Lidar com essas situações extremas é um desafio para os profissionais da área médica. Nem todos terão inclinação ou desejo de atuar nessas condições, mas a minha experiência pessoal de cinco anos vivendo em Moçambique e tratando de pacientes soropositivos foi reveladora em vários sentidos.

Se você tem esse desejo, fique atento às possibilidades de prestar serviço voluntário nas organizações médicas que atuam em situacões de crise. Além de tudo que a experiência pode proporcionar nos aspectos mais amplos da sua carreira, esse tipo de vivência é um diferencial no currículo em momentos de seleção de candidatos.

Mas, voltando para o conceito de pensar de forma global e agir localmente, não é preciso ir longe para fazer a diferença. Estamos vivendo numa vila global e doenças consideradas erradicadas em alguns países começam a reaparecer. Só para começo de conversa, o sarampo voltou a ser preocupante no Brasil e a febre amarela também está reaparecendo após desastres ambientais, como o de Brumadinho, por exemplo. De acordo com a Fiocruz, moradores das áreas atingidas estão expostos também à dengue, esquistossomose e leptospirose, além do agravamento de doenças respiratórias, problemas de hipertensão e transtornos mentais como depressão e ansiedade. Já parou para pensar no que você pode fazer?

Photo credit: David Sanfiel[:]

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